Parte 1 Parte II
Após abrir a porta, seu olhar fora direcionado imediatamente ao centro do cômodo. Havia um pequeno trono, uma poltrona de pedra talhada direto do chão, como se a sala a muito tempo fosse uma grande jazida de obsidio e todo o minério foi retirado deixando apenas o teto, as paredes, o chão e um grande paralelepípedo de onde foi talhado aquele trono. Sentado naquele simples e imponente trono, havia uma armadura negra.
A armadura possuía traços aterradores, face em forma de um crânio humano, em volta de seu maxilar um par de chifres, um em cada lado, que saiam da testa do crânio e se espiralava por trás, oferecendo proteção as laterais. A armadura, primorosamente forjada, apresentava placas firmes e inteiras que se encaixavam de forma a garantir movimentos rápidos e precisos. Olhou novamente o elmo, observou os vãos nos quais haveriam de ter olhos e de lá apenas saiam dois filetes rubros, que escorriam até o chão.
Quando tirou os olhos da armadura conseguiu observar a sala na qual estava com mais atenção e cuidado e era igualmente aterrador a armadura. O chão estava submerso em sangue até a altura dos calcanhares enquanto a sua direita, a sua esquerda e atrás daquele trono existiam esqueletos. Milhares de esqueletos. Entre crânios humanos, animais, polimorfos e com um pouco de atenção se acharia até uma pequena quantidade de bestas infernais. Eles estavam amontoados até o teto, sobrando livre apenas, o espaço entre a porta e o trono.
Ao dar alguns passos em direção a armadura, notou que a mesma, apesar de não ter um corpo dentro, possuía uma arma. Uma grande arma de haste em sua mão esquerda, levantada, em posição de guarda, como se esperasse por alguém. Era uma bela arma de haste, forjada do mesmo metal que a armadura, porem em sua ponta existiam duas ferramentas de guerra. Em um lado reside um martelo de guerra, grande e imponente. Em sua superfície milhares de pequenas cavidades afiadas, sujo com sangue seco. Fora usado para esmagar algo há bastante tempo, mas talvez a vitima daquele ato esteja perdida em meio aquele revolto mar hemorrágico.
— Estou aqui.— Disse o Sublinder— Apareça!— Então os olhos antes vazios e negros, ganharam um tom vermelho, enquanto o sangue parava de escorrer. Aquele ser fitou o sublinder com seus olhos negros, penetrantes e implacáveis.
— Escolhestes a salvação.— A voz firme e grave— Desejas alcança-la através da redenção ou do recomeço-
— Desejo sair deste lugar, vim parar aqui por algum nó energético, e como você parece ser a unica coisa com alma nessa dimensão, então foi você que me chamou.
— Então não é um dos milhares de habitantes deste lug...— A armadura deteu seu tom de indagação e se calou subitamente, mastigando a informação. -Entendo agora porque não fui capaz de captar sua presença quando adentrou o meu lar.
— Busco entender o que caralhos está acontecendo aqui.- Disse o sublinder perdendo a paciência. Nesse momento, o cavaleiro girou seu machado de batalha e na outra face havia um grande e vil machado, completamente manchado de sangue, e então disse:
— Desconheço as vias que teu destino tomou mortal, todavia tudo que possuo a oferecer é a salvação através de minha haste. Se não é isso que procuras, podes dar a meia-volta.
— Meia-volta? Não há nada nem ninguém por essa estrada, todas as casas estão abandonadas e não há sequer um pedinte vagando— Fitou os crânios— E eu desconfio para onde todas essas pessoas podem ter ido.
— Aguarde um momento, forasteiro. — Os olhos se apagaram, mas o sangue não voltou a correr. O cavaleiro levantara-se e com seu martelo investiu contra o sangue. Estranhamente, o sangue não esguichara onde o martelo o acertou, mas uma onda de impacto correu toda a sala, inclusive pelo sublinder que teve uma sensação de frio na espinha que percorreu seu corpo inteiro, passou pela porta e foi até onde o horizonte permitia enxergar.
Após um pequeno intervalo de tempo, a onda voltou, a armadura sentou-se em sua posição inicial e os olhos retornaram para seu vão.—Vazio, de fato. Sou o único com corpo físico nessa dimensão. Parece que minha missão está cumprida forasteiro, tenho um palpite sobre seu destino. — Girou novamente sua haste de forma que o machado tomasse a frente, mostrando ao fundo do martelo o desenho de um rosto cortado pelo fio do machado, de um lado um rosto masculino e do outro um feminino. — Mas antes, meu caro carrasco, gostaria de saber o que você é, capaz de vir a este lugar mesmo vinculado a tua carne.
— Sou um sublinder,— disse um pouco consternado como aquele cavaleiro o chamou de carrasco, mas continuou— em resumo, sou um humano que pode virar espírito integralmente sem deixar de ser humano.
E então os olhos abertos recomeçaram o pranto hemorrágico, o cavaleiro pareceu não perceber, ou apenas não se importou, pois continuou a falar:
— Entendo. Explicarei o motivo para seu caminho cruzar o meu. Sou sim, um ser tão antigo quanto essa sala, as casas lá fora e essa montanha. Mas não tão antigo quanto a própria criação. Inclusive, não sou realmente tão imortal quanto aparento. A função a qual fui designado me concedeu resistência aos efeitos do tempo, e a armadura me protege das intempéries da fome, da guerra e de pragas. Então, apesar de ter existido por muito tempo, a minha função de salvar a todos deste lugar chegou ao fim, e tu fostes enviado para dar-me a salvação.
A respiração do sublinder se intensificou. A situação mudara completamente. Ele já havia feito todo tipo de trambicagem em sua vida noturna, desde sair sem pagar até dar uma surra em alguém, tudo para sobreviver a uma noite mais movimentada, mas nunca matou ninguém. Uma das vantagens de ser um sublinder é sentir o campo energético de quem está a sua volta, e pessoas que matam, não apenas humanos, mas animais de sangue quente em geral, tem uma energia mais pesada, não como um carma, onde o que você faz volta, mas algo pior, pois a energia que volta não é só da morte em si, mas de todas os seres que passam a sentir a falta do morto, e de todos que dependiam dele para evoluir.
O mundo energético é algo engraçado. Ele funciona de forma muito mais dinâmica e rápida que o físico, então todo o sentimento do Sublinder descrito anteriormente se expressou de forma extremamente clara em sua face, sua respiração, no deglute que foi resultado da salivação intensa, e o cavaleiro viu e então esclareceu:
—Não te preocupes, caro carrasco, tua tarefa não se reverterá de forma tão intensa para tua própria estrutura. Eu não represento valor cármico algum, pois todos que conheci nesta existência estão nessa sala. E a morte de todos eles não passará até tu, pois esta negra armadura fez este trabalho para mim, então só terá de lidar com a pequena carga que minha antiga existência representa, sendo esta tão antiga que não possuo mais memória alguma dela.
Apoiou a arma de haste em suas duas mãos, se levantou e a ofereceu. Só neste momento, o Sublinder se deu conta de que aquela era a única forma viável de sair de lá. Sempre há uma opção, mas a opção seria esperar sua alma desfalecer naquele mundo tendo como unica companhia um cavaleiro em uma armadura negra em uma sala ensanguentada e cheia de ex-moradores. Então pegou a arma em um momento súbito de coragem.
A arma lhe pareceu estranhamente leve, apesar de seu incrível tamanho e esplendorosa imponência, pôs-se a girar a arma com graça, como já fez muitas vezes com o metro em suas aulas de circo, talvez para relembrar a técnica ou talvez para reafirmar a ideia de que seguir em frente era a melhor saída, independentemente do que tivesse que ser feito. Logo perguntou ao cavaleiro:
— E então. Vai com machado ou com martelo?
— Essa é uma opção a qual eu não tenho o direito de escolher, apesar de poucas as consequências da minha morte, existe um preço a ser pago pelo uso desta arma, um preço que a armadura me impedia de pagar. Saiba que do pó viemos e ao pó retornaremos com o tempo, mas o martelo, o recomeço, é um atalho para este caminho, onde tudo que sei sobre mim será esquecido e arma absorverá parte de minha existência a transferirá a ti. Se tu escolheres tal método, é possível que saia deste local longevo.
— E o machado, o que acontece se eu cortar sua cabeça com ele?
— Se cortares minha cabeça com ele, buscarei a redenção, o preço a ser pago é maior pois separarás meu corpo de minha cabeça, descosturando todos os pecados que tive em vida, separando minha essência de tudo que é terreno. Já disse que não lembro de meus pecados e de minha vida, mas como já disse a escolha é tua.
Um minuto de semi-silêncio passou, apenas com o som da arma de haste rodando e cortando aquele vento estagnado. Os olhos do cavaleiro voltaram a se esconder, e o fluxo de sangue voltou a ficar forte. Considerou tudo que havia acontecido aquela noite e tudo que foi dito a ele. Ponderou sobre evolução, imortalidade, seus próprios medos, aquele que permanece a sua frente e uma vontade louca de voltar ao bar que iniciou sua noite para tomar mais uma cerveja gelada, dessa vez, a saideira.
— Cheguei a uma decisão.— Disse o sublinder, os olhos reapareceram, não mais controlando o fluxo de suas próprias lágrimas que escorriam em excesso.
— Então, o que eu mereço? O recomeço ou a redenção? —
O Sublinder botou a arma em direção as suas costas, e agilmente rompeu o golpe em direção a vitima, acertando em cheio seu coração.
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