21 de novembro de 2013

Bolinhos, pratos executivos, shoppings e crônica

Boa tarde,
hoje estou escrevendo sobre algo banal. Pode chamar de crônica se quiser. A história de alguém, não muito velho e não muito novo também, e ele é pego em uma situação terrível. Tem de almoçar no shopping. Venha ler essa historinha de quinta, sim estou publicando numa quinta, e veja se a carapuça serve, se você gostará do texto ou se ele apenas lhe fará rir.

Juventude, Cegredo




A rotina é simples. Casa, trabalho, casa, almoço, estudo e de volta a paz do meu lar, em busca de minhas novelas, telejornais, vinhos, mulher, descanso e conforto. Alias preciso parar de ter grandes idéias. Claro, parece uma grande ideia almoçar no shopping após o trabalho com o sentido de poupar tempo. Não que eu não goste de comer fora, mas a ideia de comer sozinho é alem de paradoxal, tediosa.

Estou eu aqui, sai de meu trabalho que fica cerca de 200 metros de distancia daqui. Lá ninguém almoça aqui, todos ou levam almoço de casa ou almoçam em casa. Não é um trabalho ruim, mas detesto admitir que não ganho o bastante para realizar meus pequenos lazeres cotidianos e almoçar fora todo dia. Parecia uma grande ideia como já disse, economizar o tempo de ida até em casa pois teríamos um encontro de grupo no shopping mais tarde, então se fosse para casa provavelmente trocaria de blusa, faria um sanduíche rápido e sairia comendo ou então perderia a hora, e já entrei em um consenso com meu grupo sobre como trataríamos atrasos superiores a 15 minutos. E se você mora numa cidade movimentada como a minha, sabe que em quinze minutos você anda quinze metros. Isso se andar. O transito é um inferno.

A primeira coisa que se deve considerar é onde. A medida que você cresce começa a enchergar grandes verdades que antes pareciam apenas frases, como aquela de um cantor brasileiro: "É tanta coisa no Menu, que eu não sei o que comer." Claro, existe o sentido filosofico que se encaixa em uma série de cenários e criam uma reflexão profunda sobre o sentido da vida, mas o sentido literal da frase funciona perfeitamente também. Peguei-me dando uma, duas voltas pela praça de alimentação. Como a hora é de almoço a maioria das pessoas preferem pratos feitos, ou como eles chamam em lugares de renda um pouco melhor, prato executivo. É como o prato feito, só que ao invés do prato estar feito, o que está feito são os ingredientes, sendo apenas necessário arrumar em um prato.

Apesar do grande numero de pessoas comendo arroz e um grelhado, o numero de lugares que parece oferecer esse tipo de serviço é um tanto quanto... limitado. Já o preço é realmente exorbitante. Não é como se alguém gastasse uma média de 30 reais por dia para almoçar. Iriamos todos a falência. Desisti de procurar por qualidade e comecei a procurar por preços, e então descobri o que realmente acontece. Todos aqueles fast-foods não convencionais que vemos por ai se transformam em restaurantes de prato feito. E junto com esses pratos executivos encontramos a preferencia social. Quero dizer. Os lugares com fila.

Fila é um dos jeitos mais eficazes de organizar pessoas em ter de apelar para a lei do mais forte, isso é, se o serviço fosse realizado com a excelência, não de qualidade, mas sim, tempo. Então excluimos automaticamente todas as filas muito grandes. São más opções porque alem de todo o charme que qualquer fila de lotérica oferece, você precisa ficar roncando enquanto espera. E se demora para que o pedido seja feito, imagine o quanto demora para que o pedido fique pronto.

Fui parado por uma atendente de um desses Falsos FastFoods que vendem pratos feitos. Um ponto para serviço, por mais que pareça pouco, algumas palavras dirigidas a você no meio de tanta confusão significam mais que alguma coisa. E o refrigerante é gratis. Não é o PE mais barato do lugar, mas ganha dos incrivelmente cheios já que lá as latinhas custam 4 reais. Pus-me na fila nem tão grande. Sentei-me a mesa para esperar o pedido e comecei a ler um pocket.

A vantagem de ler é que se pode prestar atenção ao redor. Pessoas esperando em pé pelo seu pedido, enquanto amigos de trabalho comentam sobre a saia da atendente, que pode não ser sexy, mas mamilos rigidos são mamilos rigidos em qualquer lugar. E era incrivel, estar no meio de tanta gente e me sentir tão só. Quero dizer, quando se está com muitas pessoas, crê-se que não está sozinho. Isso definitivamente não é verdade, mas prefiro ser esse pequeno modelo observador do que acabar tendo de conversar com algum estranho sobre coisas ralas e vazias, como o tempo ou o quanto eu realmente não me importo com qualquer coisa que ele vá dizer.

Mas de longe esse paradoxo é o que me incomoda, o que realmente incomoda é o fato de que todos. TODOS estão com as fuças enfiadas nos celulares. Não só os que como eu estão esperando o pedido, pessoas ficam com seus pratos de comida, garfo e celular na mão enquanto comem. Isto me incomoda não pelo o que eles estão fazendo, mas por como estão fazendo. Podem passar seus dias em computadores e momentos de lazer em seus celulares, mas como podem não aproveitar a maravilha que é o momento de isolamento da sociedade e paz que ele te dá.

Existe uma pequena variedade nessas pessoas, como aqueles que ao se sentar organizam a mesa de almoço para que o celular esteja em um lugar acessivel, tem aqueles que não o soltam e tem aqueles que olham mais para o celular do que para o próprio prato. Não teria essa capacidade em mil anos. Me sinto ocupado demais enquanto como para fazer qualquer outra coisa.

O numero eletronico acende, meu pedido chegou. Se você me der licença, como eu disse, o almoço é um tempo sagrado de solidão. Até mais.

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